Em um mundo obcecado pela velocidade e pela tecnologia digital, o fotógrafo Brendan Barry escolhe um caminho radicalmente diferente. Ele se dedica a construir suas próprias câmeras, desde modelos portáteis até estruturas imponentes do tamanho de salas inteiras, conhecidas como câmeras obscuras. Seu trabalho mais recente, “Flowers for Bea”, é um testemunho de como essa abordagem artesanal pode imbuir um corpo de trabalho com significado, memória e um senso de ritual.
Do objeto cotidiano à obra de arte
Barry, que também é educador e fundador da organização sem fins lucrativos Positive Light Projects, é conhecido por sua prática analógica focada no processo. Ele transforma objetos inusitados – como abacaxis, troncos de árvore, acordeões e até pães – em câmeras funcionais. Sua obra “Flowers for Bea” explora a beleza das flores silvestres coletadas perto de sua casa em Devon, fotografadas através de uma câmera obscura do tamanho de um cômodo. O projeto, realizado durante os lockdowns da Covid-19, acompanhou as caminhadas diárias de Barry com sua filha, transformando a coleta de flores em um ritual familiar.
Processo como obra: a magia da câmera obscura
A essência da prática de Barry reside no processo. Ele utiliza técnicas fotográficas analógicas, valorizando o ato de criar em si. Ao transformar espaços como galpões, elevadores, lojas e até o andar de um arranha-céu em Nova York em câmeras obscuras, Barry convida o público a vivenciar a imagem-making de forma física e temporal. Cada câmera, construída com materiais que vão de madeira a Lego, não apenas molda a imagem final, mas também a experiência de quem a contempla. A relação entre forma, processo, imagem e experiência é central em sua arte, explorando a mecânica da visão e os processos fotográficos analógicos.
Flores para Bea: tempo, cor e singularidade
As fotografias de “Flowers for Bea” foram capturadas usando dois processos analógicos distintos, que exigiram longos tempos de exposição – em alguns casos, até oito horas para uma única imagem bem-sucedida. Utilizando papel fotográfico cromogênico, as variações na temperatura ambiente e na concentração química tornaram cada imagem única e irrepetível. Barry descreve o trabalho como “uma pequena revelação”, onde o resultado final é uma surpresa, uma complexa improvisação com luz, papel, tempo e química. Essas imagens, que capturam detalhes além da visão humana, convidam a uma contemplação profunda e silenciosa.
Colaboração e o futuro da fotografia
A colaboração é um pilar no trabalho de Barry. Frequentemente, ele convida outras pessoas para participarem do processo dentro das câmeras, transformando a revelação de uma imagem em uma experiência compartilhada de aprendizado e descoberta. Olhando para o futuro, Barry continua a explorar novas fronteiras com trabalhos abstratos focados em luz e cor, ao mesmo tempo em que mantém seu compromisso com a prática socialmente engajada através da educação e da colaboração. Seu objetivo é criar trabalhos que conectem pessoas, abram novas formas de ver o mundo e sustentem espaços para a curiosidade, experimentação e colaboração.
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