Escrito por:
Arthur W
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Você provavelmente consegue se lembrar de alguma cena do Studio Ghibli que, à primeira vista, não tem nada de extraordinário.
Chihiro observando a paisagem pela janela de um trem.
Totoro esperando um ônibus embaixo da chuva.
Kiki caminhando pela cidade sem pressa.
Nenhuma dessas cenas possui grandes revelações, batalhas ou reviravoltas. Ainda assim, elas permanecem na memória de milhões de pessoas. Mas por quê?
A resposta pode estar em um conceito da cultura japonesa chamado Ma.
A palavra japonesa Ma (間) costuma ser traduzida como "espaço", "intervalo" ou "pausa". No entanto, essas traduções não conseguem transmitir completamente seu significado.
Em vez de representar apenas um vazio, o Ma é o espaço que dá sentido ao que acontece antes e depois dele.
Na música, é o silêncio entre duas notas.
Na arquitetura, é o espaço entre dois objetos.
Em uma conversa, é a pausa antes de uma resposta.
Na animação, pode ser o momento em que um personagem simplesmente existe, sem dizer nada e sem fazer nada aparentemente importante.
É justamente nesse intervalo que muitas emoções encontram espaço para surgir.
Os filmes do Studio Ghibli não têm medo da lentidão.
Enquanto muitas produções modernas procuram manter o espectador constantemente estimulado, os filmes dirigidos por Hayao Miyazaki frequentemente desaceleram a narrativa.
É comum encontrar cenas em que os personagens:
observam a chuva;
cozinham uma refeição;
caminham em silêncio;
contemplam uma paisagem;
apenas respiram antes de seguir em frente.
Do ponto de vista da história, essas cenas poderiam ser removidas sem alterar a trama principal. Mas, emocionalmente, elas são essenciais.
Elas criam uma conexão entre o espectador e aquele mundo.
Em muitas produções ocidentais, existe uma preocupação constante em preencher cada segundo da narrativa.
Se nada acontece, logo surge um diálogo.
Se o diálogo termina, entra uma piada.
Se a tensão diminui, começa uma sequência de ação.
O Studio Ghibli faz o oposto.
Ele permite que o silêncio faça parte da narrativa.
Esses momentos funcionam como pequenas pausas para que o espectador absorva tudo o que acabou de acontecer e prepare suas emoções para o próximo acontecimento.
É uma forma de contar histórias que exige confiança no público.
Uma das cenas mais conhecidas de A Viagem de Chihiro mostra a protagonista viajando de trem sobre a água.
Durante vários minutos, praticamente nada acontece.
Não há explicações.
Não existem grandes diálogos.
Apenas o som do trem, a paisagem passando pela janela e a expressão silenciosa da personagem.
Paradoxalmente, essa é uma das cenas mais lembradas de toda a animação.
Ela não entrega informação. Ela entrega sensação.
O uso do Ma está diretamente ligado à maneira como Hayao Miyazaki observa o cotidiano.
Os filmes do Studio Ghibli dedicam tempo a pequenos gestos que normalmente passariam despercebidos:
alguém preparando uma refeição;
uma mochila sendo colocada nas costas;
o vento movimentando a grama;
o barulho da chuva;
uma porta sendo aberta lentamente.
Esses detalhes criam uma sensação de autenticidade.
Mesmo quando a história envolve espíritos, castelos voadores ou criaturas fantásticas, o comportamento dos personagens continua profundamente humano.
Talvez a maior diferença entre o Studio Ghibli e muitas produções atuais não esteja na técnica de animação.
Também não está no estilo visual.
O verdadeiro diferencial pode ser a disposição de confiar no espectador.
Os filmes do estúdio acreditam que nem tudo precisa ser explicado imediatamente.
Algumas emoções surgem justamente nos espaços deixados pela narrativa.
Enquanto grande parte do entretenimento moderno tenta disputar nossa atenção a cada segundo, o Studio Ghibli faz algo quase radical: desacelera.
E, ao fazer isso, nos convida a observar.
O conceito de Ma mostra que o silêncio não representa ausência de conteúdo.
Na verdade, ele pode ser uma das ferramentas narrativas mais poderosas que existem.
Talvez seja exatamente por isso que tantas cenas do Studio Ghibli permaneçam na memória durante anos.
Elas não tentam apenas prender nossa atenção.
Elas nos dão tempo para sentir.
Gostou desse tema? Este artigo faz parte de uma série sobre narrativa, animação e arte. No canal Desenhista Nerd, também exploramos como o Studio Ghibli constrói suas histórias e por que elas continuam emocionando pessoas no mundo inteiro.
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